2 de julho de 2008

a vida social moderna de 1927 (tão actual)

«Vão desaparecendo a pouco e pouco das relações da vida social moderna os costumes encantadores que do passado ainda restavam — e com que saudade eu os vejo fugir para sempre das tristezas da existência contemporânea!
Parece que os homens do nosso tempo, apesar de todos os ardentes apostolados, cada vez duvidam mais uns dos outros e a tal ponto que o que procuram com ansiedade e febre é não confessar as suas angústias ou as suas alegrias, mas escondê-las cuidadosamente, de maneira que nada se conheça delas.
O ser consciente desta época de veementes lutas, educado entre o feroz egoísmo das sociedades, torna-se também egoísta e da sua intimidade afectiva afasta os outros com um terror secreto. Não os deseja para confidentes de felicidades ou de sofrimentos: e quando muito, apenas com eles trocará banais palavras de sociabilidade, que nada exprimem e em que se adivinha a secura, a suspeita, a fadiga e até o tédio.
Deste modo, todas as criaturas que povoam a terra e conjuntamente vêm combatendo, através das idades e das civilizações, por um sonhado ideal de graça e de concórdia humana, encontram-se de dia para dia mais isoladas e mais longe desse bom e fecundo calor de ternura que amolece as asperezas e faz vicejar as puras flores do sentimento e do amor.
É curioso verificar que, quanto mais a rês pensante se aperfeiçoa moralmente e com mais vigor peleja para a comunhão fraterna da espécie, mais astuta e mais desconfiada se mostra aos entendimentos.»

in O Passado de João Grave, 1927.

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