14 de janeiro de 2010

«amo-te mais do que apenas mais um dia»

Ontem à noite assistimos, no Teatro Nacional de São João, à peça O Ano do Pensamento Mágico, uma peça de Joan Diddion baseada nas suas memórias, com interpretação de Eunice Muñoz e encenação de Diogo Infante.

Joan Didion escreveu o livro The Year of Magical Thinking, uma compilação das suas memórias, sobre a morte, a perda e todo o pesado processo que envolveu a morte dos seus entes mais queridos. Publicada em 2005, a obra de Joan Didion foi recriada em forma de monólogo, no palco da Broadway, do National Theatre de Londes e agora em Portugal.

No período em que recuperava da morte do marido, e confrontada com a debilidade da filha, Joan Didion optou por fazer o que melhor sabia para controlar a dor que a incapacitava: escrever.
A narrativa, sem ser cronológica apresenta-se ao espectador como "uma amálgama de estados de alma", é uma travessia no deserto da existência que "vai acontecer-vos", avisa Eunice, não num tom ameaçador mas de prenúncio e de inevitabilidade. Um tom que dá o mote e continua a saborear-se nas palavras que só compreendem aqueles que vivenciaram a realidade da perda. Falar sobre a perda, mesmo a actuar, é fazer esse exorcismo muito pessoal.
Em palco Eunice é o epicentro a partir do qual a peça se desenvolve, uma poltrona, uma mesa, o livro da Joan Didion, um copo com água, lenços, e ao longo do monólogo música para acompanhar os momentos em que a escuridão nos cobre e em que o cenário, com um intrincado de formas acutilantes, que ambiciona representar as sinapses de um cérebro, ou as raízes da árvore de uma vida, se move e deixa a descoberto, após essa terrífica catarse, um final, que será o final para a vida. "Amo-te mais do que apenas mais um dia".
Bravo Eunice!

Os fantasmas não sujam nem desarrumam nem deixam marcas. Da porta ao fundo da sala de estar, talvez 100 metros quadrados, tudo está impecável. No hall de entrada estão perfeitamente arrumadas as fotografias e as flores; o telefone, uma caneta e o bloco de post-its com o nome do casal Didion/Dunne estão alinhados sobre uma pequena mesa. A história está à vista e o que se vê é o que é, a história já não vai mudar. É a casa de toda-uma-vida ainda que ela não tenha vivido aqui toda a vida. Mas as memórias de toda-uma-vida estão nas paredes – nas fotografias ampliadas e assinadas ou nas fotografias mais modestas do marido e da filha e dos três juntos –, estão nas mobílias e estão em todos os gestos que não chegam para encher uma casa vazia. Viver em Manhattan é um sonho. Viver no Upper East Side é um sonho dentro do sonho. A casa é de sonho e de uma elegância que tem pouco a ver com a vulgaridade das lojas de estilistas nos passeios lá em baixo (Yves Saint Laurent e Tom Ford as mais próximas). O sonho é aquilo que fica, mesmo se já não estão as pessoas que o sonham.
Excerto de “Quem é Joan Didion”. In O Ano do Pensamento Mágico: [Programa]. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II, 2009.

2 comentários:

  1. Eu não sou e nem nunca fui muito apreciadora de teatro! Mas, pela tua descrição, parece ser uma peça bastante interessante! Na volta até eu iria gostar :)

    Beijinhos e boa semana!!

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Muito obrigada pela visita ao Paraíso, retribuirei assim que puder.

Até breve!