A Vida no Paraíso: 11 anos de vida no Paraíso

29 de abril de 2019

11 anos de vida no Paraíso

Este mês de Abril o blogue fez 11 anos de existência e hoje mais que nunca faz todo o sentido relembrar o primeiro post que escrevi no blogue (e que em baixo transcrevo), onde citei um parágrafo de uma obra de João Grave onde fala do Porto de 1927. A nossa casa já existia nesse ano, e agora podemos dizer que as ruas do Porto voltaram à vida e ao movimento que João Grave lembra com saudade neste texto.
No entanto, este movimento atual deve-se ao turismo e não a uma melhor qualidade de vida dos portugueses como na altura acontecia. Onde a sociedade frequentava os teatros, os bailes, iam ouvir os poetas, e as ruas e os jardins enchiam-se de famílias.
A Rua da Bainharia, outrora uma viela estreita e sórdida, voltou a ser o passeio preferido graças aos turistas, mas infelizmente a maioria dos seus habitantes teve que deixar os seus lares para dar lugar a um número infindável de alojamentos locais.
O turismo está a ser bom e mau, a cidade está a ficar sem os seus genuínos habitantes, e as casas que estão a ser recuperadas a perder a sua genuinidade, e começam a parecer todas iguais.
Não está a ser fácil assistir a esta transformação diária da minha cidade, espero estar enganada mas daqui a alguns anos esta cidade ficará ainda mais vazia do que era antes.
Uma comemoração em jeito de desabafo de alguém que escolheu viver na cidade onde ninguém queria viver, onde ninguém queria estar sequer e agora todos querem ter a qualquer custo!

O PORTO DE 1927

O Porto era, então, a capital do norte, perfeitamente isolada da capital da nação, com a sua vida autónoma e característica, os seus hábitos, os seus costumes, as suas tendências. A gente de dinheiro de entre Douro e Minho e de Trás-os-Montes vinha aqui refugiar‑se enquanto durava o Inverno, frequentava os teatros, tinha as suas reuniões, oferecia os seus bailes e ia ouvir os poetas, de grenha ao vento, pedirem o mote às freiras, pelos outeiros dos conventos. Nesses anos, ainda a Bainharia — hoje uma viela estreita e sórdida — era o passeio preferido pelo mundanismo portuense, que por lá aparecia às tardes, de badine, chapéu alto de abas direitas, gravata tufada, e perfumes no lenço de finas rendas: e ruas e praças tinham um movimento, uma alegria, um enlevo que hoje não possuem!

in O Passado de João Grave, 1927.

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